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Peneirada da Flip 2014 06/08/2014

Posted by Maria Elisa Porchat in Atualidades, Diversos, Literatura.
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IMG_1418-001 A Flip deste ano foi a cara do homenageado: cheia de humor,  irônica e contestadora. Por ser Millor Fernandes cheio de facetas e  extraordinário em todas elas, ele estava presente em quase todas as mesas literárias – no cenário das tendas, nas ilustrações, nas frases lapidares que introduziam os debates e nos temas da programação.

Duas mesas foram exclusivas para ele. A de abertura começou com o crítico Agnaldo Farias destacando o valor de Millor como artista plástico, pensador e artista da palavra. Em seguida, os humoristas Reinaldo, Hubert e o Jaguar  contaram sobre o convívio divertido com Millor na  época  das revistas Pifpaf e Pasquim. Ele fazia tudo em casa e só chegava na redação para conversar e atrapalhar o fechamento.

A segunda mesa, com o jornalista Sérgio Augusto e os caricaturistas Claudius e Cássio Loredano, destacou a integridade, a independência e a coragem do guru do Méier diante dos os militares. Millor abordava  qualquer tema através de paradoxos, pelo avesso, com liberdade, – “ o livre pensar é só pensar”.Vigiava a  coisa pública e denunciava maracutaias.  O Pasquim fazia resistência à ditadura e Millor só não foi preso porque era tão genial que desconcertava até os censores. ”A Justiça farda mas não talha.”   Brincava com a língua como ninguém  e mesmo ao desenhar, sempre começava com uma ideia verbal, numa combinação perfeita de desenho e palavra escrita.

Riu-se muito com o humor inteligente de Antonio  Prata e do paquistanês Mohsin Hamid.Falam com muita ironia  de si mesmos e do mundo.Para Prata, a literatura  mostra a vida como ela é; já a realidade é “fotoshopada” com as celulites que a vida tem. O Brasil tem mais a ver com o Paquistão do que com os Estados Unidos, pelo desconforto com a desigualdade social. Mohsin Hamid  no seus livros não quer “exotizar”, ser um paquistanês, mas escrever para algum leitor que com ele se identifique.Lançou na Flip – Como ficar podre de rico na Ásia emergente.

Uma mesa sobre poesia e prosa com Gregório Duvivier, Eliane Brum e Charles Peixoto também lembrou Millor, um poeta do humano.Para o humorista Duvivier, humor  e poesia são similares porque têm um olhar diferente sobre as coisas, subvertem as verdades estabelecidas e lembram que nada deve parecer natural.São formas de resistência.Duvivier tem duas coletâneas de poemas.

Segundo Charles Peixoto, sua poesia marginal carioca, de inspiração hippie sempre foi esculhambada pela crítica.Lançou na Flip o volume de obre reunida Supertrampo.

Sucesso na mesa fez a  repórter e poeta Eliane Brum. A leitura e a escrita a salvaram  de uma infância árida e triste. “ No processo de escrita fui possuída por mim mesma”.Deixando a plateia com a respiração suspensa, Eliane contou que nas reportagens da série A Vida que Ninguém Vê descobriu  poesia na fala dos entrevistados, linguagens que tinham que ser entendidas. “Uma  parteira é chamada para povoar o mundo, nas horas mortas da noite”, ouviu de uma entrevistada. Pura poesia  pela boca . Eliane Brum lançou Meus desacontecimentos , na Flip.

Cacá Diegues num bate-papo com Edu Lobo tocou no patrulhamento ideológico que sofreu para filmar Xica da Silva. Não se pode brincar com a escravidão. Quem disse? Pode-se brincar com tudo. Taí o  Millor. Cacá contou que conseguiu um papel para Cartola num filme seu para ajudá-lo financeiramente. Na Flip lançou a autobiografia  Vida de Cinema – antes, durante e depois do Cinema Novo.Edu Lobo lançou São bonitas as canções, uma retrospectiva de sua carreira.

Vladimir Sorókin foi  o primeiro escritor russo a vir para Paraty. É representante da literatura underground, aquela que foge dos padrões comerciais, fora da mídia. Para ele, a literatura é como um tiro silencioso.Você não escuta, não sente, mas é atingido.O humor, assim como a vodka é necessário para enfrentar a severidade da Rússia, país que está sendo tomado pelo autoritarismo.

A arquitetura mais uma vez foi tema da Flip.O arquiteto Paulo Mendes da Rocha , que preconiza uma arquitetura socialmente responsável, e o critico italiano  Francesco Dal Co conversaram sobre as afinidades entre Veneza e Paraty. As duas cidades foram invadidas pela água, foram de difícil construção mas venceram os desafios . A arquitetura transforma a natureza para ser habitada. É a porta de entrada para uma reflexão sobre a cidade. Toda cidade é feita de conflitos – comerciais, politicos, ambientais, mas são eles que produzem melhorias. Apenas os conflitos mortais destroem cidades, como acontece na Faixa de Gaza.

Gaza, claro, foi abordada  pelo  escritor israelense Etgar Keret, hoje o principal  nome  da literatura de Israel,apresentado como aquele que tem os livros mais roubados nas bibliotecas. Viver  numa região permanentemente em conflito o levou a fazer humor na catástrofe, uma forma de protesto contra a realidade. Nos conflitos, a ficção é uma zona segura .Para ele, é possível sim dividir  por dois um pedaço de terra, de modo vivível. Marcante também na vida de Keret o drama de seus pais  que viveram o holocausto, fazendo com que ele evitasse desde pequeno   causar qualquer tipo de  sofrimento à  mãe. Lançou na Flip – De repente, uma batida na porta.

Dor familiar comoveu a plateia no depoimento emocionado de Marcelo Rubens Paiva durante a mesa de lembrou os cinquenta anos do golpe militar. O escritor estava sob o impacto da voz do pai transmitida num pronunciamento do deputado, feito no dia primeiro de abril de 64.Chorou ao lembrar o drama que a família viveu  com o seu desaparecimento, após tortura e morte  nos porões da ditadura .Falou da luta e transformação de sua mãe,  hoje com Mal de Alzheimer.” Quem realmente combateu a ditadura,  foram  mulheres como minha mãe a a estilista Zuzu Angel “ -disse.

Marcelo Rubens Paiva é cético quanto ao trabalho da Comissão da Verdade no esclarecimento dos casos de pessoa desaparecidas, mas acredita no do Ministério Público. Para ele, as Forças Armadas não se reciclaram, não repudiaram o que aconteceu e existe grupo de tortura ainda articulado no Brasil.

A discussão política esteve presente até quando se falou de comida, com Michael Pollan, para quem na mesa de almoço temos as primeiras lições de democracia e sociabilidade. O autor de Em Defesa da Comida – um manifesto – criticou a política de alimentação nos Estados Unidos, que deveria parar de dar apoio à indústria alimentícia e dar mais atenção à prevenção da saúde. Criticou a indústria de combustível que usa cana- de- açúcar e milho, e em vez de alimentar crianças, alimenta caminhões. Acrescentou que fast-food está para a comida assim como a pornografia está para o sexo. Deu 4 dicas de alimentação para crianças que só comem besteira : que os pais comam alimentos saudáveis diante delas, que as crianças também cozinhem, que  plantem hortaliças e que só haja comida saudável nos armários da cozinha.

A política americana em suas entranhas de corrupção e serviços de espionagem  foi atacada no encontro de Glenn Greenwald, advogado e jornalista,  com o documentarista Charles Ferguson que denunciou os interesses por trás da crise financeira de 2008. Após as denúncias, Snowden   está asilado na Rússia, mas  Greenwald acha que todos os países que se beneficiaram das denúncias de Snowden, como Brasil e Alemanha deveriam recebê-lo. Snowden  denunciou o esquema de espionagem por achar que a grande mídia apoia o sistema corrupto e falho das instituições americanas.

Para Andrew Solomon, autor de livros sobre depressão,  o oposto da depressão é a vitalidade. A depressão é cíclica e  ensina a entender as pessoa e a tolerar o que há de ruim no mundo. Solomon  pesquisou identidades que não correspondem aos padrões sociais mais básicos como autismo, surdez, transexualismo e outros.Defende uma criação e educação que reconheça   essas identidades pelo que são e as ajude a encontrar a autoestima.

Outra frase do Millor – “A Astronomia é o Ph.D. da Astrologia”. O físico e articulista Marcelo Geiser e o professor Paulo Varella falaram de Ciência e Astronomia  de forma clara e até poética sobre os limites do conhecimento científico, sobre a visão do universo e do céu sobre a nossa cabeça. É preciso olhar para cima, para os astros, ( a iluminação da rua não pode ser voltada para cima, mas para baixo ) mesmo que se trate de um céu do passado, porque com a velocidade da luz, o que vemos já passou. As distâncias são tão incríveis que uma viagem interestelar é impossível. O avanço da tecnologia leva ao conhecimento, mas sempre de modo incompleto e limitado. Indagado sobre a influência dos astros na vida dos homens, a Astrologia, Paulo Varella respondeu ao estilo do Millor : “Nós , de Leão, somos céticos em relação a isso”.

Se em quase todas as discussões, podia-se fazer um gancho com a      vida e a arte de Millor Fernandes, na   última a que assisti, parecia que Millor estava encarnado  na Fernanda Torres. –  engraçada, irreverente e provocativa . Fernanda ironizou o fato de seu colega de mesa , o peruano Daniel Alarcon  estar lançando um livro cujo enredo fala de teatro, algo fora de moda.”Sou mais valorizada aqui na Flip como escritora – ator parece não valer nada, mas um autor vale muito”. Romance de Fernanda – Fim e o de Daniel Alarcon – À Noite Andamos em Círculos. Mesmo sob  risos, Fernanda fez uma crítica séria à crise do teatro e do cinema, hoje presos ao entretenimento para sobreviver.

A Flip de 2014 teve uma estrutura diferente, mais simples e barata, sem a grande tenda do Telão, que foi substituída por dois telões ao ar livre, de  acesso gratuito e que funcionaram a contento. O tempo ajudou, sol de inverno gostoso e à noite,  um céu lindão com  lua crescente.

Ruas lotadas, as artes mais variadas nas calçadas,teatrinho  de sombras, ambulantes de livros,  cordel, (poesia cósmica !)  artesanato , muita música, carrinhos de cocada e bolo de mandioca.

Termino  com uma última frase do Millor que eu li na exposição da Casa da Cultura e adorei :  “O bicheiro  morreu de repente deixando mulher, três filhos e o delegado de Polícia totalmente desamparados.”

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A Festa Literária de Paraty e eu 12/08/2010

Posted by Maria Elisa Porchat in Atualidades, Literatura.
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Fui pela terceira vez à Festa Literária de Paraty e a cada ano gosto  mais dela. É aprendizado com  diversão,  a cabeça  mistura  literatura, história, arte e sociologia, relaxa com  caipirinha, passeio na praia  e  andanças  no centro histórico, as ruas cheias de arte popular . Sem falar na quantidade de pessoas conhecidas e da pilha de livros que você adquire para  deleite de um ano inteiro.

Ano a ano me hospedo mais perto das tendas. Na minha primeira Flip, fiquei num barco ancorado numa marina a quatro quilômetros da vila. Agora fico em pousada, fazendo a reserva com bastante antecedência. O único estresse do programa é a compra de ingressos para as mesas.  Tem acontecido de chegar cedinho no balcão de vendas, com o cartão de crédito na mão e ouvir da vendedora “estamos sem sistema” e quando o tal sistema volta, já não existem ingressos para as mesas mais procuradas.  É bem verdade que durante a Flip a pessoa acaba conseguindo assistir a todos os eventos, seja comprando o ingresso de alguém ou atrás do telão na rua, comendo uma tapioca ou um bolo de aipim.

De qualquer forma, a preparação para a Flip é prazerosa. Desde quando tomamos conhecimento por e-mails ou pelo jornal dos autores participantes e do homenageado e a partir daí lemos ou relemos  livros e textos  de assuntos sobre as palestras.Um programão.

Gilberto Freire na Flip 2010 12/08/2010

Posted by Maria Elisa Porchat in Atualidades, Literatura.
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Como era previsto, prevaleceram os elogios ao sociólogo Gilberto Freire, homenageado na Festa Literária de Paraty deste ano. Nas diversas mesas que discutiram sua obra, ficou patente sua contribuição para a cultura brasileira, apesar da polêmica na sua literatura.  Diferentemente dos grandes mestres da USP como Florestan Fernandes e Roger Bastide que defenderam a objetividade e o rigor científicos nas pesquisas sociológicas, Gilberto Freire retratou a sociedade patriarcal em Casa Grande e Senzala de forma mais descompromissada, intuitiva, sem conclusões, em que pesem os pormenores e a riqueza de informações de suas obras. Termos usados por ele como mulato e judeu, inexistem nos textos científicos.

Gilberto Freire valorizou a mestiçagem, as contradições, os paradoxos e a complexidades das relações entre o senhor de engenho e o escravo. Apresenta em Casa Grande e Senzala uma democracia racial, no que é contestado, com o equilíbrio dos contrários.

Conservador na defesa do patriarcado e revolucionário na forma de escrever, e por denunciar os prejuízos da monocultura da cana de açúcar por prejudicar o meio ambiente, as discussões sobre Gilberto Freire despertaram curiosidade nos milhares de leitores participantes da Flip de 2010.

Frases marcantes da Flip 2010 12/08/2010

Posted by Maria Elisa Porchat in Atualidades, Literatura.
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“Não existe explicação sobre como a poesia vem. Há um mistério inexplicável, ela nasce do espanto e qualquer coisa pode espantar o poeta”.

 “Literatura é a forma. A temática é um subproduto dela, é o autor e seus medos”.

“A maternidade é frustração e deleite”.

“O livro digital não substituirá o impresso. Os dois se somarão. Nada se compara à imersão no livro impresso”.

“As livrarias vão vender menos com o livro digital, mas podem oferecer serviços, como conselhos sobre obras e leitura”.

“Deus não tem a ver com a criação, é compromisso com um amor transformador, um poder transformador”.

“O Ocidente não está isento de barbáries. É errado generalizar que todo fundamentalista é terrorista”.

“Ter fé é importante para a identidade do ser humano”.

Estas foram frases que levaram leitores da Flip à reflexão, anotadas  durante as mesas de debate de Patrícia Melo e Lionel Shriver, Robert Darnton e John Makinson, Terry Eagleton , e na de Ferreira Goulart.

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